28 julho 2008

Enquanto isso, na Sala da Justiça

No desenho dos Superamigos (tem hífen?) e no Seriado de TV dos anos 60/70 o Batman tinha o cinto de utilidades. Tinha também o Robin, um ítem de inutilidade. Qual super-herói precisaria de um moleque importunando e fazendo perguntas imbecis? Só mesmo o Batman. Um super-herói sem super poderes. Imaginem o Superman tendo que carregar um adolescente em seus vôos? Impossível. O Homem Aranha sempre teve suas andanças entre as paredes de edifícios, passeios sem rumo em que ficava divagando sobre a vida. Um lance solitário e extremamente propício a uma procura por respostas de uma crise existencial. Uma super crise existencial, diga-se. Agora imaginem ele com um pré-adolescente atrás dizendo: "Santa depressão, Aranha!". Ainda não assisti ao Cavaleiro das Trevas. Sei que não há Robin e nem haveria possibilidade do perturbado Batman andar por aí com o apêndice de sunga verde. Mas no desenho dos Super-Amigos (é sem hífen?) dava pra ter o Robin. O Batman ali não era perturbado. Era um tiozão. O desenho dos Super-Amigos era muito surreal. E era bom pra caramba. Eu listei alguns absurdos maravilhosos do desenho:
- O Tempestade dava em cima da Mulher Maravilha
- Pior, o Darkside também era afinzão da Mulher Maravilha, no melhor estilo os 'brutos também amam'
- O avião da Mulher Maravilha era invisível. Mas ela não ficava invisível. Dava pra vê-la voando por aí sentada dirigindo uma linha branca em forma de avião
- O Mitsuplic era o meu vilão favorito. Era um velhinho que vivia em outra dimensão e que quando aparecia, só voltava pra lá se lesse o próprio nome ao contrário. Algo como Clipustim. O fato é que nos episódios sempre aparecia outra palavra e mesmo assim ele desaparecia. Alguma coisa mal feita, ou mal explicada. Mas por isso mesmo era muito legal (Depois eu conto sobre o dia em que vi o Mitsuplic em carne e osso em uma palestra sobre teosofia em Brasília).
- Entre os Super-heróis havia espaço para todas as minorias. A Sala da Justiça era como se fosse a ONU. Além do Robin e sua masculinidade, tinha também o Vulcão Negro - com um tipo de negão do Harlem -, o japa Samurai e um indião, o Chefe Apache - um que ficava gigante.
- O seriado sempre acabava em risadas coletivas.
- E, pra mim, o tópico mais absurdo. Apesar de ter super-heróis como Batman, Superman, Aquaman, quem realmente salvava o dia eram os super-gêmeos Zan, Zaina e o macaco azul Gleek. Vai entender!
Alguém mais lembra de outros detalhes da Liga da Justiça?


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17 julho 2008

Zen pablismo - O sábio

Você quer mais respostas do que possui perguntas.

O verdadeiro sábio conhece exatamente o que não tem certeza.


E nem por isso tem estresse.
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15 julho 2008

O tempo e o trem


O tempo lá vem
viagem que nunca fiz
Se bem que
Todo dia, feito o dia
Feito um trem,
ele vem

O seu mote, sua dança
lança
Um cheiro de passado
inté fotos eu tenho
esfumaçadas, se bem

O trem lá vem
viagem que sei, entonce
Mas nego, sá,
Até a morte, feito a morte
Feito o tempo
ele vem

Um véu que esconde
onde
O céu amoita o sol
com o brilho da lua
escurecida, se bem

Pro sábio que matuta de tudo
eu digo que o homem é um tempo
que chega, que passa e não vai

A saudade é matula do luto
pra ela toda gente é um trem
que chega, que passa e não vai
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11 julho 2008

Diálogo do dia: Povo feliz

Ex-morador de Belo Horizonte: ó, vou te falar, mais de 40% daquela cidade é favela.

Eu: Ah, é?

Ex-morador de Belo Horizonte: Eu já fiquei perdido em uma, uma vez. Andava pra lá, pra cá, descia, subia. Correndo perigo demais.

Eu: Cê tá é louco.

Ex-morador de Belo Horizonte: Mas cê sabe, num é assim também não. Tem muita gente boa ali. Eu era amigo de muita gente da favela.

Eu: Mas o pessoal trabalhava? Conseguia emprego?

Ex-morador de Belo Horizonte: Uai, eles roubava uma coisas pra outro lado da cidade...

Eu: Ah, então era bandido?

Ex-morador de Belo Horizonte: rarara, uai era né. Ou, depois que eles fica te conhecendo é tranquilo. O povo lá é muito alegre. Mais alegre que gente rica. Tem umas festinha, as meninas dançando e tal...

Eu: É um povo feliz.

Ex-morador de Belo Horizonte: Ou, aqui, eu moro há dez anos no mesmo lugar. Bairro bom. Até hoje tem uma casa boa lá que eu nunca vi o povo sair pra fora. Fica só esperando o carro buscar. Só.
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01 julho 2008

O 46o passageiro

Sexta-feira, 14h14, sol forte, luminosidade perene, calor visível. Em um minuto eu embarcaria em uma viagem conhecida. Nada de mais. Não esperava nada além do que cinco horas de sonolência, leve irritação em momentos esparsos e alguns pensamentos existenciais carregados pelo passar lento das nuvens. Tinha sido assim desde a primeira viagem rumo a Belo Horizonte para fazer vestibular. Vieram outras, Juiz de Fora, Belo Horizonte e finalmente o vai-e-volta entre Goiânia e Uberlândia. O caminho se repetiria dezenas, centenas de vezes e se repete até hoje nas visitas aos meus pais. Nesse trecho aprendi algo fundamental. Dentre as certezas da vida uma é infalível: a imprevisibilidade. Até a mais rotineira sina não possui constância. E em viagens longas nós não queremos isso. Nós queremos apenas sentar, calados, com um fone de ouvido e de preferência sem ninguém ao lado pra puxar conversa. Nós queremos apenas chegar ao destino. Às vezes até penso em não descer na "parada do lanche" pra que nada minimamente extraordinário aconteça. Nesse dia, assim como no início de tudo, primeiro foi o verbo. Fiat lux, abracadabra, independência ou morte, hey-ho-let's-go. Depois dessas expressões sempre veio alguma merda. Naquele dia foi "vou caganeirá". Literalmente.
As palavras foram vociferadas por uma mulher de 1,70 e uns 300 centímetros de largura. Ela era gorda. E me desculpem os politicamente corretos, ela era uma balofa sem proporções. Poxa, existem magros e gordos. Ela era gorda. Ela sentava na última fileira de poltronas do ônibus. Eu estava na fileira da frente. E, por isso, ouvi o "mãe. vou caganeirá". "Nossa", pensei. "Como isso vai caber no banheiro?". Todos sabem, banheiro de ônibus é um caixote. E balança. É como se estivéssemos dentro de uma maraca na mão de um percussionista cubano. À princípio achei graça daquilo. Ela indo "caganeirá" e entalando no banheiro. Só não imaginei que ela realmente teria extrema dificuldade em se desentalar da porta do banheiro.
Imagine uma gorda segurando nas bordas da porta tentando se equilibrar, tentando bater a porta. Tudo isso depois de "caganeirá". Importante: a porta do banheiro ficava logo à minha frente. O cheiro que saía de dentro daquilo era estonteante. Era o odor do limbo. Como podia tanta podridão dentro de uma mulher? O que ela teria colocado pra fora? Um gambá morto?
Fiquei sem ar. O tempo se estendia. Os segundos pareciam minutos. Ela soltava grunhidos envergonhados enquanto se debatia à porta da latrina: "opá", "ai", 'etâ". Lá da frente a massa começou a protestar: "ei, aí, quem peidou?" "que cheiro é esse?" "pára tudo motorista". Eu além de tudo temia que ela caísse em cima de mim. Nessa hora, encurvado, eu já tampava o nariz com a camiseta.
Bum! A gorda conseguiu bater a porta do banheiro. Ela se sentou ao lado da mãe (uma mulher mais velha que até então não ajudou em nada). Naquele momento dividimos o espaço com um outro passageiro: o alívio. Mas ele estava apenas de passagem. A carniça fecal tomou conta de todo o ar. Eu quase via as moléculas de oxigênio sujas, quase que enlameadas, da cor daquilo que vocês conhecem. Oxigênio sujo de bosta. As janelas travadas. O ar-condicionado parecia não conseguir filtrar o esgoto gasoso. Retornava uma brisa podre.
A viagem continuava. O cheiro permanecia. Agora, com aquele aspecto aromático de banheiro recém usado em todo o ônibus. Suportável, vai. Mas...e não é que a gorda se levantou! Arregalei os olhos e clamei baixo aos céus: "não, meu Deus... de novo". Dessa vez não ouvi as palavras. Não precisava. O "vou caganeirá" estava implícito. E assim foi. A luta da gorda para fechar a porta depois de liberar o resto do gambá morto foi menor. Mas o cheiro não era breve, nem leve. Parecia uma visita indesejada. Castigava certamente até os ácaros que habitavam escondidos o tapete do acabamento interno do ônibus. Era um odor anti-vida. O cheiro nos acompanhou até a rodoviária.
Na procissão lenta dos passageiros na descida do ônibus, alguns murmuravam: "nossa", "cruzes", "ei, ai, vige Maria". Embaixo, após pegarem suas bagagens e de serem acariciados pelos primeiros ventos noturnos, era visível o sentimento de ressureição dos passageiros. Não olhei pra trás. Não procurei pela gorda. Em casa, relatei o acontecido à minha mãe que só comentou: "coitada".
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